A AVALIAÇÃO NA SALA DE RECURSOS MULTIFUNCIONAIS
Descrição da imagem: alunos em atividades educacionais na sala de recursos multifuncionais
Na
sala de recursos multifuncionais, o aluno com deficiência intelectual
poderá ser avaliado em função dos aspectos motores, do desenvolvimento
da expressão oral e escrita, do raciocínio lógico matemático, do
funcionamento cognitivo, da afetividade (comportamento e interação) e da
relação que o aluno estabelece com o saber. Esta avaliação deve ser
realizada preferencialmente
através de situações lúdicas, as quais devem permitir a livre expressão do aluno.
O
professor do AEE acolhe a queixa trazida pela família ou pelo professor
do aluno a respeito das dificuldades enfrentadas por este no contexto
escolar. Como já referido anteriormente, ele avalia o aluno nos
diferentes ambientes nos quais ele está implicado (família, escola, sala
de recursos multifuncionais). Nesta avaliação, o professor do AEE
considera os diferentes aspectos implicados no desenvolvimento do aluno,
tal como já citado.
Em relação aos
aspectos motores, é importante que o professor observe se o aluno é
capaz de manipular objetos de diferentes texturas, formas e tamanho, se
ele é capaz de pegar no lápis para pintar, desenhar, bem como para fazer
o traçado das letras. No caso do aluno apresentar acentuadas
dificuldades motoras que impeçam o movimento necessário para realizar
desenhos ou o traçado das letras, o professor deve começar a avaliação
utilizando folhas de papel madeira e ir diminuindo gradativamente o
tamanho do papel até chegar a usar o papel ofício para realizar pintura
livre ou pintura a dedo dentre outras atividades.
O fato de
apresentar dificuldade motora não impede o aluno de participar de
atividades de escrita ou de pintura, pois são muitas as possibilidades
que o aluno pode ter para expressar sua representação do mundo. O
computador se constitui em um recurso importante para expressão do
aluno, além de outros recursos que o professor pode lançar mão para
permitir a manifestação do conhecimento da criança. Estes recursos podem
ser utilizados por ocasião da avaliação do aluno.
Para avaliar o
desenvolvimento da expressão oral, o professor deve observar se o aluno
compreende determinadas mensagens (recados), se ele é capaz de
expressar suas ideias de modo coerente com o contexto em questão, mesmo
quando ele não é capaz de falar. Nesse caso, ele pode, por exemplo,
expressar sua compreensão através de desenhos, apontar o material
apresentado pelo professor e ainda pode realizar movimentos corporais
afirmativos ou negativos. Ainda com relação à expressão oral o professor
deve verificar se o aluno verbaliza de forma clara suas ideias, se ele
faz uso, ao falar, de um vocabulário amplo e diversificado.
Essa
avaliação pode ser feita por meio do reconto de uma história, que ele
pode registrar pelo desenho ou construção de maquete, modelagem ou,
ainda, pelo jogo simbólico. O aluno poderá ainda relatar situações
vivenciadas, ou ainda usar prancha de comunicação ou jogos educativos
para expressar seu conhecimento. Todos esses recursos possibilitarão a
expressão oral do aluno e oferecerão informações importantes ao
professor no sentido de compreender
sua expressividade verbal e não verbal.
Na
avaliação da aquisição da língua escrita, diferentes atividades podem
ser utilizadas com o objetivo de informar ao professor o conceito que o
aluno tem sobre a escrita. Para exemplificar esse procedimento de
avaliação, três exemplos serão apresentados: a atividade de avaliação do
nome próprio, a produção espontânea e a leitura do texto memorizado1 . A
avaliação do nome
próprio objetiva verificar se o aluno compõe seu
nome (que pode ser feito com alfabeto móvel) e se atribui importância à
seqüência e ao conjunto das letras que formam seu nome.
Na
avaliação desse conhecimento, o professor deverá considerar se o aluno
compõe o nome próprio sem ajuda do professor; se ele considera que o seu
nome está escrito, mesmo quando falta alguma das letras que o compõe;
se ele considera que seu nome está escrito quando todas as letras estão
visíveis, ainda que a ordem das mesmas tenha sido alterada, e, por fim,
se ele considera que seu nome está escrito quando todas as letras estão
presentes na ordem adequada. As concepções que o aluno apresenta a
respeito do seu nome indicam ao professor como este aluno está
interagindo com a escrita do próprio nome, mesmo quando este ainda não
produz esta escrita de modo independente e convencional. 1Para maior
detalhamento acerca dessas atividades avaliativas, sugerimos consultar o
livro avaliação da leitura e da escrita: uma abordagem psicogenética.
Figueiredo, Rita Vieira (org). Fortaleza: Editora UFC, 2009.
A
avaliação da produção espontânea tem por objetivo verificar as hipóteses
de escrita do aluno. O procedimento consiste, na proposição da escrita
de uma lista de palavras de um mesmo grupo semântico (lista de animais,
de frutas, de brinquedos, dentre outras) pelo aluno.
A partir das
produções dos alunos (diferentes representações gráficas) o professor
pode identificar o nível de compreensão que o aluno tem do sistema
escrito.
A avaliação com base na leitura de um texto memorizado
tem por objetivos verificar se a criança lê o texto de memória ou se
utiliza outras estratégias para realizar a leitura e ainda serve para
verificar se a criança localiza no texto palavras solicitadas pelo
professor.
Nessa avaliação, o professor deverá observar: se o
aluno lê o texto se apoiando na memória, lê o texto utilizando
diferentes estratégias, indica as palavras solicitadas com apoio na
memória ou lê, convencionalmente, as palavras solicitadas pelo
professor.
Outras propostas de avaliação da linguagem escrita
podem ser efetuadas pelo professor do AEE, não com o intuito de
alfabetizar esse aluno, mas com o objetivo de identificar sua evolução
em leitura, as concepções que esse aluno apresenta sobre o universo da
escrita, bem como sua relação com o saber escolar.
A forma como o
aluno se relaciona com o saber tem papel importante em seu processo de
aprendizagem. Se este aluno se percebe como sujeito de aprendizagem
capaz de contribuir ativamente com a construção de saberes no interior
de seu grupo ele certamente terá uma motivação maior na mobilização de
seus mecanismos de pensamento. A sala de aula comum se constitui espaço
privilegiado para essa troca de saberes nas diferentes áreas de
conhecimento.
O aprendizado da matemática pode ser uma fonte de
desenvolvimento intelectual e social muito importante para os alunos que
apresentam deficiência intelectual. Para isto, é essencial que os
aprendizados façam sentido para eles. É preciso que esses alunos sejam
capazes de ver a pertinência dessa aprendizagem em situações concretas.
Muito frequentemente, o ensino da matemática para os alunos que
apresentam deficiência intelectual apela unicamente para os aprendizados
mecânicos fundamentados na repetição e na memorização.
O sentido
que o aluno imprime às suas ações e o significado que dá aos signos
linguísticos e matemáticos que manipula são determinantes para o
processo de aprendizagem deles.
Logo, a intervenção do professor deve ser proposital para que o aluno dê sentido ao que faz e ao que expressa.
O
professor da classe regular é o responsável pelo ensino da matemática
na sala. O professor do AEE não deve substituir o trabalho daquele
professor. Ao professor do AEE, cabe conhecer o que o aluno sabe em
função de suas experiências de vida, inclusive na escola.
Deve
ser estabelecido um clima de confiança entre professor e o aluno para
que este último possa manifestar o que conhece a partir de suas
experiências.
A avaliação dessas experiências poderá ser
realizada pelo professor do AEE através da proposição de
situações-problema contidas nessas experiências, cujas resoluções possam
implicar a necessidade de o aluno levantar hipóteses mediante a
mobilização de seus conhecimentos prévios. Essa mobilização poderá
permitir que ele identifique e analise uma determinada alternativa de
resolução de uma dada situação problema, na perspectiva de generalizar
para outra situação semelhante. Intervenções como estas são de grande
importância para o desenvolvimento intelectual do aluno e poderão
contribuir no seu aproveitamento escolar.
Os aspectos
sócio-afetivos do aluno que apresenta deficiência intelectual também se
constituem foco de atenção do professor do AEE durante a avaliação. As
pessoas que apresentam deficiência intelectual podem ter dificuldade no
plano sócio-afetivo, especialmente no que se refere à construção da
imagem de si mesmo (SAHUC, 2006). Aspectos como a exclusão social, a
dificuldade em interpretar as atitudes e os comportamentos dos outros em
relação a si, a dificuldade de se fazer entender pelos outros e enfim,
as experiências de fracasso nas diversas situações da vida cotidiana se
constituem fatores suscetíveis de contribuir para esta situação. Uma
baixa autoestima pode interferir na motivação do aluno que apresenta
deficiência intelectual quando ele está em situação de aprendizado ou de
resolução de problemas.
Este modo de funcionamento decorreria de
sucessivas experiências de fracasso. Consequentemente, o professor do
AEE não deve interpretar os comportamentos de busca de informações no
meio externo como sendo a expressão de uma falta de atenção, uma vez que
o aluno pode simplesmente estar exercendo um procedimento visando
realizar um aprendizado ou resolver um problema.
Além dos
aspectos sócio-afetivos relacionados ao deslocamento do saber para o
outro e de uma história de fracasso quase sempre associada a essa
situação (deslocamento do saber), a avaliação do professor de AEE não
pode desconhecer vivências culturais desse aluno. Uma fraca assimilação
dos costumes e da cultura do próprio meio pode influenciar na construção
de um pensamento pouco sociabilizado.
O professor do AEE deve
levar em consideração essas características no momento de intervir junto
ao aluno que apresenta deficiência intelectual. Porém, o professor
deverá, sobretudo, mostrar-se plenamente consciente que é muito mais nos
gestos e nas atitudes que nas palavras que o aluno que apresenta
deficiência intelectual expressa seus sentimentos.
Outro aspecto
importante a ser avaliado na sala de recurso multifuncional é a relação
que o aluno estabelece com o saber. Se ele mantém uma relação positiva
ou se, ao contrário, o aluno não manifesta nenhuma motivação pelos
conteúdos escolares. O professor avalia esta dimensão a partir da
proposição de atividades pedagógicas (tais como aquelas acima citadas)
nas quais ele observa o modo como o aluno as realiza. Ele poderá,
também, considerar esse aspecto a partir das informações oferecidas pelo
professor do ensino comum.
Fonte:
http://arivieiracet.blogspot.com/2011/02/avaliacao-na-sala-de-recursos.html